segunda-feira, 21 de agosto de 2006

2o Campeonato Sulamericano de Triathlon de Inverno – Ushuaia 2006 (ou “Aonde eu fui me meter...”)

(Sábado, 19 de Agosto) Vou avisando logo, está longo, por isso está dividido em partes para quem quiser pular um ou outro assunto.

Antes da Prova – Dizer que estava ansioso era exagero, mas depois de quase acordar algumas vezes durante a noite, acabei saindo da cama meia hora antes do despertador tocar. Aproveitei para começar a tomar meu café-da-manhã no quarto com o que tinha comprado na véspera, porque a ordem do dia era conseguir armazenar o máximo de energia para a prova. Afinal de contas, além do esforço que eu já estava acostumado, ainda tinha o frio para aumentar o gasto de energia.

Chegando no local da prova, em Tierra Mayor, a imagem não era das melhores: quase nada estava montado e o tempo não estava nada bom para que a largada fosse feita ao meio-dia. Como tinha nevado durante quase 36 horas sem parar, a organização não conseguiu arrumar muita coisa durante a noite, pois pouco tinha sido arrumado desde quando eu saí de lá no dia anterior.

O resultado foi que houve a necessidade de atrasar em 30 minutos o horário da largada. O que foi bom por alguns motivos: 1 – Porque consegui almoçar (leia-se comer um prato de massa) com calma, as 10:30, 2 – Porque deu para fazer, com calma, uns ajustes na bicicleta para deixá-la um pouco mais parecida com uma de competição, mudando o selim que eu comprei (bem barato e foi uma ótima idéia), instalando finca-pés no pedal (boa idéia mas não deu muito certo) e botando um porta garrafa no quadro (boa idéia mas péssimo resultado, como voces vão ver abaixo) e 3 – Porque deu tempo para encerarem meus esquis, apesar da correria que foi por conta do número de esquis (não era o único que estava meio órfão em relação a cera). Para que vocês tenham uma idéia, os esquis foram encerados em um cubículo atrás da cozinha, entre uma ligação de celular e perguntas sobre aonde estava a carne. Super organizado.

A essa altura, já estava próximo do meio-dia e a neve deu um tempo, o que já não fazia muita diferença porque, apesar da máquina de compactar neve continuar sendo passada, pelo circuito, a pista ainda estava muito fofa por conta da quantidade de neve que caiu. Lembram que eu tinha dito dois posts atrás que tudo o que NÃO precisava era que caísse neve? Pois é, imaginem como eu fiquei preocupado nessa hora, faltando poucos minutos para a largada, ao tentar me aquecer na bicicleta e experimentar como estava a pista de mt. bike, quando, apesar de estar na relação de marcha mais baixa possível, eu mal conseguia me manter em pé com a bicicleta.

No link abaixo, a foto tirada momentos antes da prova (notem a cara de conteúdo).

http://www.tierradelfuego.org.ar/webcam/anteriores.php?imagen=20060819-26

O jeito foi tentar lembrar de que estava ruim para todo mundo (mas quem tinha experiência sabia se safar melhor do que eu) e tentar me aquecer no circuito da corrida a pé aonde, mesmo com a pista não tão dura, pelo menos eu tinha noção de como não afundar na neve.

Assim, pouco antes de 12:40, sem sol e pouco vento, foi dada a largada.

Corrida (8 km) – O circuito a pé era um caminho de 2 km de ida e volta que tinha que ser feito duas vezes. Logo após a largada havia uma curva para a esquerda, uma descida suave e um riacho que, por conta da neve que caiu, não estava firme o suficiente para correr sobre a neve. O resultado foi que o pessoal que saiu correndo na frente quase se afogou no riacho por conta do entusiasmo e por achar que dava para atravessar correndo. Para quem estava vendo de trás, foi muito engraçado. Aliás, esse era o principal problema durante a corrida, principalmente nos primeiros 2 km: como a neve não estava firme o suficiente, sempre ficava o medo de afundar o pé na neve e encharcar o tênis de água muito mais do que fria. E durante toda a prova, teve trechos que não tinha jeito: por mais que evitasse, não dava para não molhar os pés. Pode-se pensar que isso pode ser muito prejudicial para o resto da prova, mas como o corpo todo está quente (e eu estava ainda um pouco mais agasalhado), e os pés são um dos extremos do corpo, até que ajudava a manter a temperatura corporal menos alta e, assim, suar menos. E o problema de suar é que, por mais sintético que a roupa seja, ficar com a roupa molhada de cara para o vento é sinônimo de doença na certa.

De qualquer forma, consegui encontrar um ritmo confortável e completei a corrida de, pelo que disseram, 8 km em pouco menos de 40 minutos. Fraco se comparado ao tempo que eu faço no asfalto (uns 5 minutos a menos para a mesma distância), mas considerando as condições climáticas foi bastante razoável. Além do mais, isso não foi exclusividade minha, basta ver os tempos na classificação.

Transição 1 – Diante da torcida local (que assim como no domingo anterior também estava torcendo como se fosse morador da cidade), fui para a área de transição e pegar a bicicleta. Antes de montar, tinha que fazer um S para sair da transição e entrar no circuito propriamente dito, como em qualquer prova de triathlon. Só que, ao chegar na linha marcada o pessoal dizia “Vai empurrando”, simplesmente porque estava impraticável pedalar pelos primeiros 200 metros. Dessa forma, só consegui montar muito a frente da linha demarcada.

Ciclismo - Mountain Bike (12 km) – O problema é que, durante o primeiro quilômetro, a neve simplesmente estava muito fofa para ficar em pé. Ainda mais para quem não estava acostumado, como eu. Por isso, quando eu achava que ia aproveitar para ultrapassar alguns que estavam na minha frente, ocorreu exatamente o oposto. Como não tinham muitos atrás de mim (tinham uns 40 na prova principal, que eu participei, e uns 25 na prova ‘promocional’ que tinha distância menor) felizmente para o psicológico foi bom não ser ultrapassado muitas vezes.

O circuito de mt. bike tinha supostamente 4 km, em forma de laço (como se costuma dizer, mas como se fosse um circuito de autódromo) e um parte em subida mais tranqüila e uma descida forte. Na descida da primeira volta, vejo o campeão do ano passado, o Frederico Cícero, caminhando com a bicicleta e abandonando a prova. Menos um. Mas durante boa parte da volta, o que eu mais me preocupava era em não cair ou ter que empurrar a bicicleta. Infelizmente, não evitou que eu caísse umas duas vezes e tivesse que saltar da bicicleta outras tantas. E não eram quedas do tipo “desequilíbrio porque tentava montar/sair na bicicleta enquanto ela estava parada”, eram mais do tipo “estava andando a uma velocidade x e na hora em que a neve ficava mais fofa, a bicicleta enterrava na neve e eu era projetado para frente”. Como estava na neve, saí sem um arranhão de todas as quedas.

No final da volta, a neve estava mais compacta e dava para acelerar um pouco mas qual não foi minha surpresa de ver que demorou 20 minutos para completar 4 km, quase a mesma média a pé.

Nas duas voltas seguintes a neve firmou um pouco e criou um trilho, igual àqueles que têm na Fórmula 1, onde se saísse dele era quase certo de ter que saltar da bicicleta. Isso ainda não impediu que caísse mais algumas vezes e a corrente saltasse duas vezes, mas pelo menos as voltas foram um pouco mais rápidas (embora não tanto quanto gostaria).

Vale a pena comentar que já tinha se passado mais de 90 minutos de prova e, embora estivesse com a garrafa na bicicleta, não havia hipótese de tentar tirar do quadro para me hidratar porque tinha que estar 100% concentrado na pista. Apesar de não ter me hidratado ainda não estava me sentindo exausto (como aconteceu depois) porque o fato de estar mais concentrado em não cair fazia com que eu não desse o meu esforço máximo. Isso, somado ao fato de que no frio se sente menos vontade de beber água, só me fez lembrar de que eu ainda não tinha tomado nada no final da terceira e última volta.

Transição 2 – Ao chegar na área de transição, a primeira coisa foi tirar a garrafinha da bicicleta e me hidratar. Líquido mais gelado impossível. Depois foi botar as botas e andar até a linha demarcada para montar nos esquis. Nessa hora, o fato de ter treinado essa transição alguns dias antes ajudou a evitar que eu perdesse tempo demais, mas não evitou que eu esquecesse o capacete na hora em que fui esquiar. Uma das senhoras que estava cronometrando no momento de sair com os esquis perguntou se eu queria deixar o capacete com ela e entreguei de muito bom grado e lá fui eu para a parte (supostamente) mais fácil.

Esqui Cross-Country (10 km) – O circuito de esqui era um pouco menor que o de ciclismo (3,3 km) e seguia no sentido oposto, o que significava uma subida muito forte e uma descida mais suave. Teoricamente, com a neve mais fofa, seria a parte mais fácil. Afinal de contas, passei os 10 dias anteriores treinando técnica, estava em condições de ir bem nessa etapa.

Porém, o dia não estava ajudando. Durante a parte de ciclismo, a temperatura mudou e começou a ventar mais forte. Isso fez com que a pista de esqui ficasse mais dura e torná-la muito mais parecida com gelo. No início da volta, o vento estava a favor, mas com as pernas totalmente cansadas e os esquis não respondendo ao gelo, toda a suposta técnica foi para o espaço. Logo na primeira subida eu vi que ia acabar completando a prova era na raça mesmo. E um pouco antes de completar a volta, o vento contra simplesmente me fazia parar no meio da pista.

Tentando de tudo para continuar me movendo, mudava o estilo de esquiar, usando só os bastões para tentar me cansar menos, mas os braços também já não estavam mais ajudando. No início da terceira volta resolvi parar no meio da pista para comer uma barra de cereal que eu tinha guardado em um dos bolsos para emergências, porque só assim ia conseguir completar a prova. E, inacreditavelmente, ainda ultrapassei duas pessoas durante a parte de esqui.


Enfim, depois de 2 horas e 37 minutos (mais ou menos), consegui cruzar a linha de chegada, mais morto do que vivo, mas feliz. Foi duro, muito duro, mas valeu muito a experiência.

Ah, meus colegas de hotel, o Fabian e o Ricardo, destruíram o pelotão e fizeram, com sobras, a dobradinha da prova.

2 comentários:

Anônimo disse...

Aldo, preciso falar com vc sobre o sulamericano de triathlon de inverno. Vc pode entrar em contato comigo?

Obrigada,

Marilin
Revista Go Outside
marilinnovak@gmail.com

Anônimo disse...

Fala, cunhado !!! A partir de agora vou acompanhar seu blog.... Vê se escreve mais.... No domingo estarei lá na chegada na meia-maratona pra te ver chegar, blz ?