Antes das provas na Austria, passei alguns dias em Östersund (com trema em cima do O porque é assim que se escreve).
Porque Östersund novamente? Bom, primeiro porque é onde os demais brasileiros estão. Enquanto estava no Camp Södergren éramos eu, Leandro, Mirlene, o Capitão (para alguns também conhecido como Fabrizio) e o Fernando (eu falo sobre esse daqui a pouco). É sempre bom treinar junto com os demais, sem falar na divisão de custos. Segundo, porque aqui a estrutura é quase perfeita: cidade média (50 mil habitantes), com infraestrutura, mas sem grandes badalações, quarto do lado da pista, evitando perder tempo com carro andando para lá ou para cá. Terceiro, porque a pista é de nível internacional, com vários caminhos para escolher. Dessa forma, podemos escolher entre subidas fáceis, subidas longas, mini-paredões, descidas leves, descidas rápidas, sempre ao gosto do freguês.
| Leandro, Mirlene e eu no Camp Södergren (foto tirada pelo Capitão) |
E, embora neve seja "igual" a qualquer época do ano, treinar dessa vez aqui tem diferenças em relação à Janeiro. Vou tentar resumir algumas diferenças, algumas relacionada a época do ano, outras por experiência pessoal.
Inicialmente a neve, em particular a quantidade dela. Cheguei em Östersund dias depois da etapa da Copa do Mundo de Biathlon. Para se ter uma ideia, ainda estavam desmontando algumas estruturas provisórias que foram construídas para o evento. E não nevou muito antes das provas. Resultado: nem todas as pistas fora do estádio estão liberadas. Por exemplo, o meu "percurso" favorito (conforme eu comentei nesse link) está parcialmente interditado porque as máquinas que compactam a neve ainda não passaram por ali. O motivo é que não tem neve suficiente naquela parte, pois deixaram praticamente todo o excedente para as pistas das provas de Biathlon. Não que eu esteja reclamando, já que um dos problemas que eu identifiquei em Janeiro foi que eu andei demais naquela pista e deixei de lado as subidas mais íngremes e as descidas mais rápidas, o que acabou contando no resultado final (não que tenha sido exatamente isso, mas acho que teve influência sim), apenas acabou limitando um pouco as possibilidades (embora já tenha o suficiente para treinar enquanto estou aqui).
Ainda sobre clima, temos o frio. Embora ainda não tenha nevado o suficiente para cobrir todas as pistas, o frio está bem pior do que em Janeiro. Quando vim pela 1a vez, a temperatura estava algo em torno de -5o C, um pouco mais um pouco menos. Dessa vez, só no primeiro dia a temperatura deu uma trégua e ficou em -8o C, depois só -10o C para baixo. Esquiar a -17o C virou costume. Claro e óbvio que não falta roupa específica para o frio, mas ainda assim é um pouco mais sofrido. Na terça, quando estava uns -18o C, minha mão estava tão fria na hora das descidas que eu tive que abortar o treino e só fiz o treino da tarde porque comprei uma outra luva que tinha um corta-vento embutido para diminuir a sensação de frio. A boa notícia é que dificilmente na Áustria será assim.
Quanto a minha experiência na cidade, eu acabei fazendo mais coisas locais do que da outra vez porque o Leandro alugou um carro, o que simplifica bastante os deslocamentos. Uma noite nós jantamos junto com os técnicos suecos em dos restaurantes mais metidos de Östersund, o Innefickan. A comida estava ótima, o problema é que, considerando que o público-alvo era um bando de esquiadores esfomeados de treinos e mais treinos, podemos dizer que o estilo "nouvelle cousine" do restaurante não era exatamente o suficiente para satisfazer os estômagos famintos.
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| Nós no Innefickan (a foto não está das melhores, apenas para registro) |
Outra noite, fomos jantar em uma cidade vizinha na casa de uma brasileira, Carla, de Resende, casada com um sueco (que conheceu pela Internet) e mora na região faz 12 anos (é, eu sei, tem brasileiro em tudo quanto é canto, e ela não é a única que mora aqui). Conversamos muito, experimentamos algumas comidas locais (segundo a Carla, o problema dos suecos é a tal da "fika", algo como o lanchinho entre as refeições, que vem com tudo quanto é tipo de doce). Foi muito divertido. Ou seja, ainda que seja a mesma cidade, acabei conhecendo um outro lado dela.
Sobre a cidade em si, quase tudo igual ao que eu vi em Janeiro... exceto por um pequeno detalhe que, comparado com a foto que eu botei nesse post, todos vão notar a diferença para a foto abaixo.
| Ho, Ho, Ho... |
Por fim, como eu ia comentar, tem o meu colega de quarto, o Fernando. Ele é cadeirante, teve pólio na infância e participa de provas de triathlon para deficientes. Ele conheceu o Leandro enquanto treinava em São Paulo e acabou vindo parar aqui e treinar alguns dias antes de ir para Vuokati, na Finlândia, participar de uma etapa da Copa do Mundo de Esqui Cross Country para deficientes, primeira etapa para tentar ir ao Mundial e, quem sabe, as Paraolimpíadas. Além de todos os méritos de estar aqui, ainda tem bom humor: ele botou um video no Facebook dia desses e um colega dele amputado de um dos braços perguntou se ele tinha ido até la para andar de "esqui bunda", no que ele respondeu a gentileza perguntando se ele podia vir até aqui para "dar uma mãozinha".
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| Fernando Aranha, o primeiro esquiador cross-country paraolímpico do Brasil (na foto estão faltando os bastões, antes que alguem pergunte) |

