segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Bem vindos a (ainda baleada)... SARAJEEEEVOOOOO!!

Obviamente que já estou de volta ao Brasil e ao batente. O único motivo pelo qual ainda não tinha botado este post no ar é por conta do 'probleminha' que teve com o cartão de memória exatamente nesse dia, que acabou perdendo algumas fotos tiradas durante esse dia. Porém, dado que não havia exatamente pressa em botar no ar, achei melhor esperar e ver se conseguia recuperar as fotos e fazer o negócio de forma correta. Vamos ao post:


Considerando que era meu último dia oficial de viagem, pois o dia seguinte era basicamente empacotar as coisas e voltar para casa, que provavelmente vai demorar vários meses antes de voltar a esquiar novamente e que provavelmente não devo voltar tão cedo para a Bósnia, especialmente depois da 'rasteira' que a federação local (nem vou tentar colocar o nome dela porque a palavra soaria muito próxima do que eu acho atualmente dela), a tentação de voltar para o Brasil com a cabeça mais zerada era grande e, de fato, acabei resolvendo visitar Sarajevo.


Embora façam 28 anos desde que Sarajevo sediou a Olimpíada de Inverno de 1984, a cidade ainda se autoproclama "cidade olímpica". Talvez porque tenha sido a última coisa de bom que aconteceu antes da Guerra da Bósnia explodir (provavelmente a única na história recente dela) mas Sarajevo ainda se denomina "Cidade Olímpica". Estádio Olímpico, Montanha Olímpica, Piscina Olímpica, etc, etc... O logo da Olimpíada e o mascote também volta e meia aparecem (aliás, o mascote Vucko gerou um pedaço do título desse post por causa do vídeo abaixo exibido durante os Jogos)


(Vai, quero ver você ver esse vídeo por três vezes e não ficar com esse bordão na sua cabeça)


Dito isso, a primeira impressão que se tem de Sarajevo é de que a cidade ainda não se recuperou da guerra, embora fazem mais de 15 anos que ela acabou. Como eu expliquei abaixo, a solução exdrúxula que encontraram para redefinir os territórios dos países provavelmente fizeram com que a recuperação dela ficasse extremamente comprometida. E os estragos ainda são aparentes nos prédios mais antigos, aqueles que ainda não foram cobertos pelos prédios mais novos na principal avenida da cidade. O fato dos sérvios terem brincado de tiro ao alvo com os prédios mais altos não colaborou muito na recuperação dos mesmos. Enquanto isso, as casas parece que passaram pela versão local do "Minha Casa, Minha Vida": todas praticamente iguais com meia dúzia de cores diferentes para dar alguma graça na cidade.


Um outro ponto interessante são as "favelas" nos morros de Sarajevo. Sim, elas "existem", mas não espere nada parecido com o que tem no Rio. Nada de puxadinhos e lajes sobrepostas, mas um monte de casas uma ao lado da outra, dando uma sensação bem maior de ordem. E olha que lá seria bem melhor as casas ficarem mais próximas das outras, pois a cidade é muito fria, em parte pelo fato de que fica a mais de 1000 metros de altitude, embora fique mais ou menos no mesmo paralelo do que, por exemplo, Mônaco. A neve dura o inverno todo e a temperatura fica constantemente abaixo de zero.


A "favela" de Zetra (com um cemitério enorme embaixo). Igualzinho as do Rio...
Minha vista a Sarajevo iria durar exatas 7 horas. Isso porque, embora eu estava próximo da cidade, eu ainda tinha que ir e voltar de lá e a cidade as 18 horas já está praticamente vazia. Logo, não perguntem por restaurantes, porque não tive muito tempo de comer, e o café da manhã do hotel tinha bastante sustância para aguentar por um bom tempo. O pessoal do hotel me deu carona e ficou de me pegar no horário combinado à noite.


Já mais ou menos sabendo o que eu ia visitar, a primeira coisa foi pegar um bonde para ir até o Museu Nacional e o Museu de História. O motivo para visitá-los cedo era porque eles fechavam cedo, as 14hrs. Afinal de contas, era domingo e os funcionários tinham que descansar não é mesmo? Ironias a parte, o fato também é de que não tinham muitos turistas para visitá-los (os dois museus ficam em prédios vizinhos). Ao chegar no lugar, a primeira surpresa, o Museu Histórico estava "temporariamente fechado". Segundo a moça que trabalha no Museu Nacional "aparentemente eles estão tendo alguns problemas temporários". Pelo estado atual do museu, pelo visto vai demorar um pouco até ele sair desse "temporário".
Museu Nacional de Sarajevo, foto tirada da Internet. Tirando o dia ensolarado da foto, continua tudo igual.

Museu de História da Bósnia. Essa foto foi tirada há uns 5 anos, de lá pra cá só piorou o estado dela. Sobraram apenas uns tanques espalhados pelo jardim.


O Museu Nacional é interessante para visitar por conta da história antiga da região, além de ser barato (uns 6 reais). Muitas relíquias arquitetônicas do Império Romano e da Idade Média, animais empalhados da região, uma mostra reproduzindo uma casa típica da região no século XIX e um "Jardim Botânico" que fica um pouco a desejar ao seu irmão carioca. Para quem já está aqui, vale tirar uma hora para visitar o lugar.
Sala das relíquias do Império Romano, dentro do Museu Nacional. Foto tirada da Internet. Aqui  também está idêntico ao que eu vi no dia (maldito tombo...)

Depois dali segui de bonde até o ponto final da Linha 3 (para quem é turista é a unica linha de transporte público que realmente importa, passa toda hora e atravessa a cidade toda) e de lá peguei um taxi até o Tunel da Esperança (Tunel Spasa). Se você está sem tempo e/ou está viajando com mais de uma pessoa, o taxi é o transporte para usar em Sarajevo. Tem em quase todo lugar e mesmo se você for levemente explorado ainda sai barato. Nessa viagem até o Túnel, me cobraram 8 KM (Marcos Conversíveis, a estranha denominação da moeda local), quando provavelmente pagaria uns 6 KM. E achar o tal túnel não é simples. Ele fica em uma região super apertada, que parece um labirinto (desnecessário dizer que placa é algo em falta em Sarajevo). Aliás, foi por causa dessas ruas apertadas que os tanques sérvios não conseguiram entrar na cidade e ficaram brincando de tiro ao alvo.


O Túnel é uma espécie de orgulho local. Resumindo a história, durante a guerra da Bósnia, Sarajevo ficou sitiada por anos. A única forma de entrar alimentos (e armas) vindos do exterior era através do aeroporto, que virou território "neutro". O "neutro" é porque o pobre coitado que tentasse atravessar o aeroporto em qualquer hora do dia virava alvo móvel de caça dos atiradores sérvios. Até que alguem teve a brilhante idéia de cavar um túnel por baixo do aeroporto e poder circular alimentos (e armas) de forma um pouco mais segura.
Foto tirada da Internet do poster que ilustra o cerco a Sarajevo. O retângulo vermelho é o aeroporto, os tracinhos representam o túnel. Eu tinha batido uma igualzinha...

Terminada a guerra, a entrada do túnel, que era uma casa de uma família próxima do aeroporto, virou museu e guarda um pedaço do que foi o túnel completo. O museu é super simples, tem um vídeo de 18 minutos, onde você fica em uma espécie de bunker, sentindo frio, e vendo um vídeo mal editado sobre o túnel e imagens do bombardeio de Sarajevo, em uma espécie de "melhores momentos" das piores explosões, anda pelo trecho do túnel, olha os objetos dentro da casa e pronto. 
Foto tirada da Internet da entrada do Museu. A casa serviu como disfarce para cavarem o túnel. A família que vivia ali manteve quase tudo preservado antes de virar museu. Tirando o verde e o céu claro, a fachada é essa mesma, cheia de buracos de tiro
Ainda assim, principalmente se você fez vestibular na década de 1990, e teve que estudar sobre a Guerra da Bósnia achando que ia cair em prova (e, pelo menos no meu caso, nunca caiu) é parada obrigatória aqui em Sarajevo. Ainda mais no frio e vendo as imagens da época, dá para ter uma ideia de como foi complicado para a turma de lá passar quase 4 anos dependendo de um túnel apertado de 1,5 km para sobreviver.


(Video do YouTube do trecho do tunel que está preservado, não mudou nada desde então)


O responsável pelo museu também trabalhou na guerra dirigindo caminhões da cidade para a montanha (no trecho sob domínio dos bósnios). Uma figuraça. Ainda me deu carona de volta para Ilidza, onde fica o ponto final da Linha 3, já que ônibus naquela região no domingo não tinha. E eu aceitei de bom grado já que o tempo era bastante escasso.


A parada seguinte era Zetra. Para a grande maioria, seria um lugar como outro qualquer, mas lá é onde está o complexo Olímpico, composto pelo Estádio Olímpico e o Centro de Patinação (de velocidade e artístico). Por conta do frio, não deu para esperar o ônibus e peguei um taxi que me deixou na entrada do Centro de Patinação, onde fica o atual Museu Olímpico da cidade. Infelizmente o museu estava fechado (afinal de contas, é domingo, que turista vai visitar um lugar desses no domingo?) e o esperto aqui cometeu um erro de principiante. Tinha uma escada de uns 4 degraus baixos e uma rampa na entrada do museu. Uma ao lado da outra, uns 10 metros de comprimento no máximo, os dois com neve praticamente congelada e eu resolvi ir pela rampa. Resultado, tomei um escorregão "olímpico" que fez com que a máquina fotográfica caísse da minha mão e saísse rolando rampa abaixo. A máquina sobreviveu, o cartão de memória não. Felizmente, eu tinha acabado de trocar o cartão e, para continuar batendo mais fotos até o fim do dia, abri espaço no cartão cheio para continuar batendo fotos e seguir viagem. As fotos do dia anterior em Jahorina e as do dia antes do acidente parece que não vai dar para recuperar mesmo.


Depois do susto, fui olhar o Estádio Olímpico. Ele parece igual ao que estava há quase 30 anos. Escavado na rocha, é um daqueles estádios antigos que não parece em nada com as "arenas" de hoje, onde a entrada das arquibancadas dá direto para a rua. Vi no YouTube que alguem tinha conseguido entrar dentro do estádio. Embora eu tivesse tentado, não tive a mesma sorte. Mas dá para ver do alto do morro a visão do Estádio e do Complexo todo. Dá pena de ver o estado em que se encontra, principalmente porque, da forma como feito, o projeto parece todo compacto e funcional. Mas valeu a pena ver o famoso Estádio Olímpico (principalmente quem gosta de Olimpíada, como eu).


A Pira Olímpica continua lá, imóvel há 28 anos
A vista do Estádio Olímpico de Zetra, com o Centro de Patinação Artística ao fundo. Notem o carro passando do lado da entrada do estádio.
Portões Fechados, mas se fosse outro estádio não ia dar nem para chegar perto

O dia já estava ficando tarde e fui para a ultima parte da cidade, que é com certeza a mais interessante de caminhar, conhecida como "Cidade Velha". Ao contrario do resto da cidade, a região central de Sarajevo continua mais ou menos preservada. Prédios baixos, ruas apertadas, igrejas, mesquitas, enfim, tudo mais ou menos compactado em uma distância de 1km, no máximo.


Começando pelo lado de "fora" da cidade velha, está provavelmente o ponto mais conhecido mundialmente da cidade, ainda que as pessoas não se lembrem disso (meu caso). É a Ponte Latina, construída, reconstruída  e re-reconstruída algumas vezes. Seria mais uma ponte qualquer, exceto pelo fato de que ali aconteceu o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando (em inglês Franz Ferdinand, que deu nome a banda de rock), herdeiro do Império Austro-Húngaro, por um sérvio integrante de um grupo que lutava pela reunificação da Sérvia como país (como se vê, já não é de hoje que a turma da Sérvia anda obcecada por esse negócio de nação única), e esse assassinato foi considerado o "estopim" da I Guerra Mundial. Quem passa por lá é capaz de andar e nem saber do que acontece.


Ponte Latina
Embora as fotos não mostrem, o piso da ponte não está lá essas coisas. Um dos motivos é o fato de que o piso dela não foi feito para carros, mas ainda assim tem uma turma que resolve cortar caminho por ela de carro (digamos que nunca andam de forma suave por cima dela).


Embora fechado (afinal de contas, era domingo) ao lado da ponte tem um museu que parece ser bastante interessante que trata da história de Sarajevo entre 1878 e 1918. Do lado de fora tem algumas fotos que falam do assassinato (inclusive com fotos momentos antes e depois do ocorrido). Mais apropriado, impossível.


A Ponte Latina e o Museu Sarajevo 1878-1918 ao fundo


Outra coisa interessante da cidade velha é a mistura de religiões em um espaço tão curto. Tem igreja católica, ortodoxa, sinagoga e mesquitas praticamente uma do lado da outra. Como sempre, tem uma que gosta de aparecer mais do que as outras. Nesse caso, eu estou falando dos islâmicos e a sua tradição de botar alto-falantes do lado de fora das mesquitas para, durante o momento em que estão rezando, o resto da cidade possa ouvir a cantoria deles, queiram os habitantes de Sarajevo ou não, 5 vezes ao dia. Na minha terra, isso se chama falta de educação.

Catedral Metropolitana, Igreja Ortodoxa


Catedral, da Igreja Católica Apostólica Romana. Sim, foi inspirada na de Notre Dame

A "Mesquita do Imperador", a 1a de Sarajevo, sec XV
Pode ter sido uma questão de amostra ruim, mas o pessoal do hotel também não é muito chegado na turma dos islâmicos (e é melhor não discorrer muito sobre o que eu ouvi) e ficaram felizes em saber que não tinham muitas mesquitas no Rio. Ainda assim, a presença árabe na região é tão forte que a Al-Jazeera tem um sinal regional para o pessoal que mora ali nos Balcãs.


Mesquita de Bey, uma das mais importantes da cidade. E uma das mais eloquentes durante as rezas

Por fim, a visita termina no ponto onde eu comecei, as 18 horas e um frio um pouco mais desconfortável do que eu esperava, no chafariz que é um dos símbolos da cidade, chamado de Sebilj Brunnen, ponto turístico e também de referência. Foi um presente de um mecenas de origem árabe da região para a cidade de Sarajevo. Aliás, pela foto pode-se notar que nem precisava advinhar que tinha um dedo árabe no chafariz, pelo próprio estilo arquitetônico dele.


Sebilj Brunnen, o chafariz ponto de encontro em Sarajevo. Os pontos brancos é neve mesmo que começou a cair na hora

Em torno dela fica a Bašèaršija (Bascarsija, sem os acentos), uma espécie de réplica de mercado árabe, sem os árabes, já que o frio que fazia não era muito propício para ninguém ficar do lado de fora. Nesse trecho, são verdadeiras ruelas que formam um grande labirinto e onde estão todas as lojas de turistas. É um lugar que deve ser bem agradável no verão, mas no inverno já estava quase tudo fechado a essa hora. Caminhar por ali é bem legal, principalmente se você ainda não visitou um legítimo mercado árabe.


Uma das ruas da Cidade Velha
Depois de meia hora sofrendo no frio enquanto o motorista/garçom do hotel procurava um lugar para estacionar, voltei para o hotel e comecei a fazer as malas para a volta para casa. 


No geral, achei a cidade melhor do que eu esperava. Não viajaria apenas para conhecê-la, mas valeu a visita relâmpago (dois dias daria para ver com mais calma), ainda mais que tinha uma motivação esportiva envolvida. Se tiver que fazer uma parada em Sarajevo, vale a pena dar um giro pela cidade. Pena que ainda não conseguiu se recuperar totalmente da Guerra (e parece que vai demorar bastante) mas ainda assim tem algum charme.


No próximo post, eu faço uma avaliação da viagem e o que fazer daqui por diante.

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