Recapitulando alguns posts atrás, quem está acompanhando esta saga desde o início deve se lembrar (ou não, mas agora é detalhe) que as minhas provas seriam em St. Ulrich e Bad Goisern. Também vale a pena recordar dos meus escritos anteriores que a minha prova de St. Ulrich de 10 km não foi exatamente um sucesso, e finalmente é importante ressaltar que, ao chegar em Ramsau, recebemos o e-mail de que a prova de Bad Goisern tinha sido cancelada e renomeada para outra cidade.
Após relembrar os fatos acima, e fazendo uma pequena associação entre elas, tudo me leva a crer que só pode ser algum carma que fez com que a prova FIS acabou sendo marcada em... St. Ulrich! No meu caso em particular, esse carma foi um processo relativamente rápido, menos de uma semana. Me senti quase como se alguém tivesse falado para mim "Vai lá e termina aquilo que você estava fazendo", com o agravante de que, dessa vez, eu não estava dormindo do lado da pista, não tinha esquiado no dia anterior e todo o processo de preparação dos esquis seria quase "às cegas" pois nenhum de nós foi lá para ver o estado da neve.
Diante de tal cenário, não me sobrou muita coisa a não ser descansar no dia anterior (primeiro dia que efetivamente eu não fiz nada na viagem, já que os outros dias sem treino acabaram sendo sempre voltados para ir para outro lugar) e preparar mais ou menos do mesmo jeito que tinha sido feito uma semana antes. Assim, todo o processo de encerar foi praticamente o mesmo, exceto na hora de passar... O ESTRUTURADOR!!!!! (música de terror no fundo).
O estruturador nada mais é do que um rolo de metal que você pressiona contra a base do esqui para criar mini sulcos, permitindo que a água passe mais rápido por baixo do esqui (sim, água, pois normalmente o esqui quando pressionado contra a neve gera uma camada milimétrica de água). Como o nome sugere, cria 'estruturas' na base do esqui. Quanto mais quente e mais húmida a neve, maior devem ser os sulcos.
Brincadeiras com o nome a parte (sempre achei o nome esquisito, mas dado que é uma tradução literal do inglês, vida que segue), o estruturador normalmente ajuda o esquiador. Porém, na dúvida é preciso ser cauteloso e usar um rolo com sulcos menores. Na prova anterior, eu havia colocado o rolo de 0.75mm e, pelo que eu senti, funcionou bem. Dessa vez, sem saber direito como estava a neve, coloquei o de 0.5mm, pois as informações que passaram era de que estava nevando na noite anterior.
Na madrugada seguinte (6 da manhã, tudo escuro) acordamos em Ramsau e nos preparamos para 2 horas de viagem de volta para St. Ulrich. Apesar de saber que, se a prova tivesse sido em Bad Goisern, teríamos que fazer uma viagem quase igual, foi um pouco frustrante voltar para St. Ulrich e ir para o mesmo lugar onde estávamos, mas sem poder usufruir da vantagem de estar colado na pista. No caminho, conversando com o Charlie, que também participou da prova, ele falou que a pista de Bad Goisern era "bem mais fácil". A essa altura, eu já estava convicto de que, independente do tempo, eu ia completar a prova porque nitidamente estava com a impressão de que seria o mais correto a se fazer, mesmo que estivesse me sentindo um lixo.
Dessa forma, chegamos as 9 da manhã no lugar da prova (horário que, uma semana antes, eu estava acordando... deu para notar que eu estava realmente frustrado com esse negócio de voltar para St. Ulrich, não?) e, dado que eu só ia largar depois das 11 horas, o jeito foi comer alguma coisa, passear, dar uma aquecida, passear mais um pouco, enfim, matar o tempo. Felizmente, o tempo não estava dos piores, próximo de zero grau, sem vento, então não foi das piores esperas.
| O clima antes da prova, bem menos movimentado do que uma semana antes |
Tudo pronto, lá fui eu mais uma vez para encarar os 5 km do percurso bem complicado. Rememorando o traçado, copio o dito cujo abaixo. Lá estavam a subida eterna, o morro maldito e todos os demais obstáculos.
| Repetindo o mapa do percurso. A subida longa fica logo após o km 1 e o morro maldito está no km 3. Em vermelho, as curvas rápidas 1 e 2. |
Meu objetivo, além de completar a prova, era não cair de bobeira e perder tempo por nada. A neve, nitidamente, estava mais fofa do que uma semana antes, o que indicava que a pista estava mais pesada. Ainda assim, na largada, os esquis pareciam bons.
| Um pontinho azul saindo da largada |
Olhando para o percurso acima, eu destaquei os dois pontos em vermelho. São as duas curvas rápidas do percurso, em descida e fechadas, mais sobre elas daqui a pouco. Por enquanto, estava eu subindo a primeira subida, aquela longa, e o objetivo era tentar buscar um ritmo que deixasse espaço para que eu não chegasse em cima morto. E, surpreendentemente, eu consegui fazer isso. Devagar, mas ainda assim um ritmo confortável e o GPS depois comprovou. Chegou a hora de encarar a primeira curva rápida. Além da dificuldade natural dela, havia um segundo problema: depois de mais de 150 esquiadores passando (fora o aquecimento), a curva foi ficando extremamente desgastada, de tal forma que só a parte de dentro estava contornável, enquanto que a parte de fora estava extremamente estragada, com a neve muito fofa. Isso é um terror para quem esquia pois se apenas um esqui pega a neve fofa é tombo na certa.
Entrei na primeira curva rápida e, apesar de um pouco de desequilíbrio, consegui me manter em pé. Boa, agora é subir de novo para encarar a segunda curva. Fiz do mesmo jeito que a primeira, mas a parte de dentro foi ficando cada vez mais apertada, apertada, apertada e... ploft. Me levantei e fui adiante. A queda em si não foi das piores, o problema é que depois da curva a descida continua por um bom tempo e você perde o embalo para a subida seguinte. Dos males o menor, vamos em frente.
Chegou a hora do tal morro maldito. Tentei ritmar a subida, mas não deu, tive que parar umas duas vezes, mas o objetivo era não cair na descida. Objetivo cumprido, vamos completar a volta. Mais sobe e desce e fiz os primeiros 5k.
| Última subida chata da prova, depois de 4km. No comparativo, eu usando o V1, mais lento e o colega à esquerda usando V2. |
| Ainda na primeira volta, nas últimas subidas curtas antes da chegada. Já foi bem pior, mas ainda não consigo esquiar na posição correta, com o corpo mais projetado para a frente. |
| ...e ainda tinha mais uma volta |
Eu não queria ver o meu tempo (e de fato não consegui porque na queda o visor mudou de página), mas depois pelo GPS deu para ver que eu estava lento, comparado com a semana anterior: considerando que eu tinha tomado aquele tombaço a quase 50km/h (oficialmente 48km/h) e perdido cerca de 1'30" (considerando desaceleração e retomada), eu tinha feito praticamente o mesmo tempo até o ponto que eu saí da prova. Mesmo que eu tivesse visto o tempo, não importava, o objetivo era completar, e fui para a segunda volta.
A essa altura, acho que não preciso comentar que foi uma volta sofrida, parando em quase todas as subidas, então vamos aos tombos que aconteceram nas duas curvas rápidas, sempre pelo mesmo motivo: a parte esquiável ia ficando cada vez mais apertada e acabei indo parar na parte fofa do lado de fora. Na primeira curva, entretanto, o problema foi pior. Além de cair, o esqui entrou na neve. Para tirar dali é um parto, fora a frustração de estar lá empacado. Na segunda curva, eu já estava até preparado para queda e já caí apontado para o lado certo, embora novamente perdi velocidade para as subidas seguintes.
Após 3 quedas, algumas paradas no caminho, um estoniano que quase me empurrou para fora da pista no meio da descida do morro maldito, e 47 minutos depois, completei a prova. Fui o penúltimo a completar e o último na geral.
| Na reta de chegada. Em tese, na foto meu tronco deveria estar mais em cima da perna esquerda, mas a essa altura do campeonato mal dava para ficar em pé, então até que estava bem razoável. |
| Missão cumprida e o resultado ao lado. Não foi aquilo que poderia ser, mas não é para ficar lamentando muito. |
A curiosidade da prova foi que o vencedor foi um biatleta. O Christopher Summan resolveu participar, foi um dos primeiros a largar (ele não é filiado a FIS então larga antes) e ganhou com folga. Achamos até que ele ia "estragar" a nossa pontuação (aumentando), mas depois eu reparei que ele não tinha código FIS, logo ele não entraria no resultado para a prova da FIS, mas ganhou a prova, que era válida pela Copa da Áustria.
Para completar a minha 'absolvição' meu retorno foi bem, digamos, animado (aliás, surpresa é quando não é, basta clicar nos marcadores das companhias aéreas aí do lado para ver). Peguei um trem em Hochfilzen, perto de St. Ulrich até Viena. 5 horas e 15 minutos sentado até chegar lá (era um daqueles trens pinga-pinga, afinal de contas, se parava em Hochfilzen então parava em trocentos outros lugares).
Depois, no dia seguinte, no aeroporto de Viena, eu havia comprado uma passagem para sair de lá 3 horas antes do voo que eu poderia pegar sem perder a conexão em Paris. Tudo para poder chegar no Rio no dia 24 e poder passar o Natal em família, com o extra de ser o 1o Natal da minha filha. Só que choveu o dia inteiro em Viena e a chuva, quando a temperatura fica próxima de zero, acaba virando gelo, o que obriga os aviões a passar por um processo de "descongelamento". Foram 3 horas tensas até o avião decolar e, depois disso, sair voando pelo meio do Charles De Gaulle morrendo de medo de perder a conexão. No fim, acabou tudo dando certo e fiquei quite com a minha 'dívida' (seja lá com quem for).

