Enfim, depois de dois anos tentando, finalmente consegui participar de uma prova FIS. Adiantando desde agora que nao foi exatamente aquilo que eu esperava, mas paciencia, ja foi. Portanto, vamos aos detalhes:
Tudo comecou na vespera, dia 19 (quinta), quando fui junto com o Enrico, brasileiro que mora aqui em Oslo e que tambem participou das provas, ate o lugar da prova em Nes, um vilarejo que fica a uma hora de carro de Oslo que tem um lago proximo. A ideia era fazer um reconhecimento da pista que, pelo mapa, parecia inofensiva. Muitas retas, algumas subidas que talvez fossem complicadas, mas nada que no papel fosse dificil. Aqui da para ver como e o percurso (logo na primeira pagina). Tranquilo, certo?
Pois e, o problema estava nos detalhes. As subidas eram mais ou menos dentro do esperado, claro que sempre vao ser mais dificeis do que aparece no papel, mas ate ai tudo bem, o problema sao as descidas. Eram varias, mas tinham 3 que eram realmente complicadas. Vamos chama-las de A, B e C para identificar. A pior de todas era a B, que alem de rapida era cheia de lombadas no meio da descida. Imagine voce sentir ficar sem chao em uma montanha russa. Pois e, agora imagine descer sem o carrinho para te segurar enquanto voce fica quicando no meio da descida. Para piorar a situacao, TODAS as descidas acabam em curvas que subiam. Por um lado pode ser bom porque reduz a velocidade, por outro, dependendo do angulo, voce te jogar para fora da pista. Todas elas se encaixavam dessa forma, umas piores do que as outras, mas essa descida B era a pior.
Ou seja, apesar do percurso no papel nao ser sinuoso, na pratica nao dava para descansar nenhum momento, tanto na subida quanto, principalmente, na descida, quando deveria ser melhor.
Considerando o "reconhecimento", podem imaginar como foi meu sono de vespera. Para piorar, eu ainda estava me sentindo cansado e com muito pouca vontade para encarar 3 voltas naquele percurso.
A prova era valida pela Copa Escandinava, o nivel e fortissimo. Imaginem como se fosse a selecao brasileira (a dos bons tempos nao essa porcaria que esta ai). Tem tanto esquiador bom que poderia estar disputando a Copa do Mundo mas nao pode por causa do limite de atletas por pais. Entao sobra gente boa. Isso ja era esperado, o negocio era tentar melhorar o meu desempenho de dois anos atras.
No dia da prova estava frio, bem frio. Quando chegamos no estacionamento, fazia -13 graus. Depois a temperatura esquentou um pouco. Durante a prova, no lugar mais alto, fazia -8, no lugar mais baixo, -12. So mais um ingrediente para juntar aos outros. Enceramos o nosso esqui em uma casinha junto com os Finlandeses que vieram para a prova. A comparacao obviamente e inutil, mas ainda impressiona a quantidade de pares de esqui que eles levam para a prova (quando puder boto algumas fotos aqui). Fomos para o aquecimento. Na hora eu vi que a coisa ia ser sofrida. Me sentia pesado, sem coordenacao nenhuma, mas paciencia, vamos la.
No papel, a prova masculina tinha uns 200 participantes, gente para burro. Considerando que cada um larga em um intervalo de 30 segundos e voces veem que durante mais de uma hora nao para de largar gente. Os mais lentos largam primeiro, o que torna o sofrimento mais curto, evitando a longa espera para largar. Na pratica, largaram uns 130. Isso e bom para quem e mais lento porque menos gente passa por voce, o que torna tudo mais simples para os retardatarios, que sempre tem que dar espaco para os mais rapidos.
13:05, chegou a minha vez, la fui eu. O negocio era tentar sobreviver a prova sem arranjar nenhuma contusao por queda. O resultado ja era detalhe a essa hora. A prova inteira foi sofrida, mas as subidas me deixaram arrebentado (tive que parar umas duas vezes no meio da subida para me recuperar). A minha tecnica estava uma droga, totalmente sem coordenacao. Nada do que eu tinha treinado em Ostersund estava funcionando. V1, V2, V1 alternado, tudo parecia um amontado. Me sentia um principiante.
Porem, o meu foco principal eram as descidas, por uma questao de sobrevivencia. Toda vez que tinha uma o pensamento era jogar o quadril (em bom portugues, o traseiro) para frente para melhorar o equilibrio. Pequena explicacao: quando se esquia, por conta da velocidade, o centro de gravidade muda, de tal forma que voce tem que projetar o corpo para frente para manter o mesmo equilibrio. E, quando se entra em panico no esqui, a tendencia natural e jogar o corpo para tras, o que so piora a situacao. Por tanto, alem de tentar controlar a descida, o negocio era jogar o quadril para frente e torcer para que de certo.
Ao menos nesse ponto, o "intensivao" de descida serviu para alguma coisa. Nao sem os sustos. Na primeira volta, cai na descida B, a pior de todas, mas levantei e fui embora. O problema foi na 2a volta, na descida A. Como eu falei, as descidas sempre acabam em subida. Nesse momento, o esqui pegou uma neve mais fofa, perdi o equilibrio e cai de frente, batendo com o peito na neve. Fiquei sem respirar direito com o impacto por uns 10 segundos. Ate me recuperar, levantar, ir ate um ponto mais baixo para recomecar a subida e voltar para a prova demorou sei la quanto tempo (depois eu vejo no GPS o tamanho do estrago). Doi ate agora, mas parece que ficou so no susto mesmo.
Voltando para a prova, o negocio foi completar sem ter maiores quedas. E depois desse incidente, as coisas correram razoavelmente bem, exceto por uma meia queda na ultima volta, mas me recuperei rapido e fui em frente. No final, ja estava fazendo a descida C, uma sequencia de descidas que levava para o estadio, com alguma seguranca, o que significa que treinando da para melhorar nisso (o problema e fazer isso no Brasil, mas isso veremos depois).
Finalmente, mais de uma hora depois, completei a prova, dei entrevista no microfone do evento (nao passou na TV, mas tinha o pessoal que estava comentando a prova la mesmo) e voltei todo dolorido para o hotel. Definitivamente ficou muito abaixo do que eu esperava, mas agora nao tem volta, espero que la em Sarajevo tenha melhor sorte.
domingo, 22 de janeiro de 2012
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